As lições de Charan sobre sustentabilidade

“Dez princípios” para a inovação sustentável
Autor: Ricardo Voltolini

 

Se o complexo movimento rumo à sustentabilidade parece impossível, o desafio para empresas, universidades, governos e sociedade civil é acelerar o impossível antes que seja tarde demais para o planeta. A necessária mudança global nascerá da somatória de mudanças individuais e em pequena escala, conscientes, consentidas e estimuladas. Isso exigirá uma revisão radical de modelos de pensar e agir: escolas, empresas, indivíduos, poder público e mercados terão que ensinar, produzir, consumir, regular e vender de modos diferentes, incorporando valores socioambientais em suas práticas. Nesse novo arranjo, líderes com visão de estadistas serão imprescindíveis. Não apenas grandes líderes em grandes corporações, mas líderes anônimos em todas as instâncias da sociedade.

Idéias como estas, utópicas no melhor sentido do termo, emergiram frescas no Global Fórum América Latina, realizado entre os dias 18 e 20 de junho, em Curitiba, na Federação das Indústrias do Paraná. Há dez anos, seria, no mínimo, improvável um evento que reunisse atores tão distintos quanto empresários, reitores de escolas de administração, representantes da ONU e organizações sociais, para discutir o papel de empresas e negócios no desenvolvimento sustentável.

Os tempos, felizmente, são outros. E o capital, antes arredio a exames de consciência, parece rendido às evidências de que não haverá futuro possível para os mercados num planeta sob ameaça e sem a criação hoje de canais de diálogo intersetoriais mais amplos. Improvável seria também trazer, como convidado especial, um guru de gestão de alta patente para falar a uma platéia composta não apenas por gestores empresariais, mas ambientalistas, ongueiros, professoras de ensino básico, voluntários e jovens estudantes. Não sobre como melhorar o desempenho dos negócios, mas sobre como construir redes sociais e promover inovação sustentável.

Bem-vinda seja a diversidade. Foi o que fez o Global Fórum – evento que se pauta pelas diretrizes do Pacto Global das Nações Unidas e seus dez princípios universais nos campos dos direitos humanos, trabalho e meio ambiente. Do alto de sua experiência de consultor de grandes empresas como General Eletric, DuPont e Ford, o indiano Ram Charan veio ao Brasil para ensinar que a “missão de elevar o espírito humano” nos mantêm a todos, inclusive as empresas, “no caminho certo”. E que todo mundo pode colaborar com o desenvolvimento sustentável de outras pessoas, grupos e comunidades, bastando combinar tempo, dedicação e paixão com raciocínio lógico e ferramentas específicas.

Em defesa de sua inusitada tese, Charam apresentou “dez princípios” para a inovação sustentável sobre os quais vale a pena refletir. Primeiro –crê-- é preciso definir uma causa de interesse comum, estabelecer resultados desejados e as formas de mensurá-los. Segundo, deve-se identificar pessoas capazes de assumir compromisso local com essa causa. Terceiro, trabalha-se para formar um consenso coletivo sobre a sua importância. As empresas –segundo o consultor –podem ser especialmente mais úteis no quarto e no quinto princípios, que consistem em construir soluções que tornem produtos e serviços acessíveis e em projetar sistemas eficazes para fazê-los chegar até as pessoas. Para justificar a opinião de que não ter dinheiro induz à inovação, o especialista em liderança contou a história inspiradora de um médico da Califórnia (EUA) que foi para Uganda, na África, reuniu a comunidade, criou uma rede social e elaborou um sistema de gestão que permitiu às pessoas pobres pagarem um dólar pela assistência médica, com evidente impacto para a saúde pública local.

Além de identificar líderes sustentáveis, sem os quais não há mudança possível, (sexto princípio), Charan prega ainda nenhuma publicidade às iniciativas (sétimo), a definição de foco e prioridades claras (oitavo) e o estímulo à criatividade das pessoas envolvidas na solução (nono). Como décimo princípio, ele surpreendeu a todos com a re

* Ricardo Voltolini é publisher da revista Idéia Socioambiental e diretor da consultoria Idéia Sustentável